O CÃOZINHO ABANDONADO

Valdo Resende

Gauguin (Tahitian Pastorals, 1892 – Detalhe)

Vista ali, maquiada, bem vestida, recostada no parapeito do Viaduto Jacareí, olhando embaixo para a Avenida 9 de Julho, não dava para imaginar seus motivos. Parecia uma senhora comum, uma transeunte distraída com a movimentada avenida vista ali do alto, com seu eterno vai e vem de carros, ônibus e motos.

Postada na mureta do lado oposto ao centro da cidade, o olhar permanecia fixo, sendo difícil saber exatamente qual ponto era observado. Ela acenava, com voz lacrimosa, olhar marejado, dirigindo-se para quem lhe desse atenção: “- Olha ali, está assim, amarrado o tempo todo. Tadinho! Sem comida, sem água. Nem se mexe!” Enquanto o interlocutor tentava entender o que estava acontecendo ela esclarecia, apontando para a paisagem próxima: “- Moro ali, naquele edifício da 9 de Julho. De lá vejo ele, pobrezinho, amarrado, sem água, sem comida”.

O ato de repetir a situação…

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