Visita

Sonia Zaghetto

No dia em que a morte bateu à minha porta, eu a recebi com um sorriso sincero. Ela entrou, de vestido amarelo, e espiou ao redor, muito calma. Viu as flores frescas que comprei para esperá-la, e alisou o penteado novo. Gostou? Sacudi a cabeça, emendando que estava linda. Parecia mais jovem (e isso não era verdade – ambas sabíamos muito bem). Recusou o café: “Faz mal para o meu refluxo”, disse, polida e risonha.

Perguntei se era chegada a minha hora. Disse que não. Pontualmente, às cinco da tarde, coloquei o chá no bule. Na varanda limpa, os gatos piscavam, distraídos, e o vento frio do outono fazia as últimas flores cor de rosa se despetalarem sobre o pratinho das madeleines. Ela pegou um dos bolinhos e lhe estendi a xícara de chá preto. “Proust!”, falamos juntas. E rimos. Folheou, distraída, o livro de poemas de Louise Gluck e…

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