A Barata

em

Renato T. Mayr - Oficial

Até hoje, eu nunca tinha me imaginado como uma pessoa louca, descompassada.
Excêntrico, talvez; diferente das outras crianças no colégio, de fato; nunca entendi o porquê
de correr atrás de bolas, trocar socos e xingamentos. E até hoje tenho dificuldades de
entender o que há de tão errado comigo. Quando me olho no espelho vejo o semblante de
alguém normal, mas nos reflexos dos olhos das pessoas meus contornos parecem tomar
formas diferentes, distorcidas. Por vezes imagino perceber nos outros a tensão nos músculos,
os pelos ouriçados, o leve franzir dos cenhos quando finalmente me torno o centro das
atenções, e anos de prática me ensinaram a lidar com isso sem mais recorrer a simulações
toscas de enjoos e engasgos.

Me parece mais fácil, agora, encarar o passado e todos os momentos que
compartimentalizei ao longo dos anos: uma criança me chutou os culhões, sem más
intenções, no meio de…

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