Um conto de Boston – parte 5

em

Ordenha Cósmica

A tensão de ser quase descoberto me animou como há muito tempo não experimentava. Ao passo do fascínio por encontrar e ler as cartas do transeunte anônimo, escritas em português e cheias de lamúrias gloriosas, fui me tornando receoso de ser reconhecido. Mas, ainda assim, entre o dilema ético de querer saber mas não querer ser sabido, continuei minhas visitas semanais na mesma estação de trens, com olhar fixo naquele banco de madeira descascada. À uma distância segura de onde poderia monitorar o fluxo de cidadãos sem ser denunciado, permaneci semana após semana com um livro em mãos, abaixando-o frequentemente para poder examinar o meu alvo. O livro era O Mito de Sísifo, de Albert Camus. Minhas expectativas anímicas de ler sobre uma mente claramente tão perturbada, sua relação com o mundo e suas caminhadas limítrofes na beirada do abismo se agigantaram em meu peito. A vida valia a pena?…

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