Blues

Sonia Zaghetto

Certo mesmo é que o meu país me dói.

Dói como ferida aberta,

mas também como algo antigo, que me devora por dentro e me faz ter febres nas madrugadas insones.

O meu país existe em mim há tanto tempo

Figura materna, cálido seio, acalanto quando a noite vem.

E, no entanto, me põe pedras a pesar sobre o peito,

e me envolve numa espécie de nevoeiro.

Sigo (pois nada mais me resta) equilibrando o passo entre a esperança que cultivo e uma agonia indesejada; entre o gosto ancestral e esse travo amargo que agora trago na boca.

No meu país vivem os meus amados. É o que os ameaça.

Já não posso pensar no meu país sem que me venham uns suores.

Isso é tão incômodo!

Tento sussurrar promessas ao meu coração;

embalo-o e canto-lhe canções de ninar.

Ato-lhe fitas verdes e digo-lhe para aguardar por mais um momento.

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