In the Cut

Quatrocentos golpes

Acontece, por vezes, que a passagem do tempo nos permite encarar certos filmes sob novas, e mais lisonjeiras, perspectivas. De insuportável, In the Cut, de Jane Campion, mantém o visual pós-Seven, inundado de filtros e luzes (vermelhas, amarelas, verdes), e apostado na desfocagem e no efeito bokeh. No entanto, o falhanço visual acaba por funcionar em favor do filme, uma vez que o achatamento da imagem contribui para a des-substancializar, retirando-lhe realidade e, por conseguinte, realismo. A recusa do filme foi generalizada porque, então, na miopia característica do agora, muitos não conseguiram ver que In the Cut — não obstante os sexos, as carnes e as vísceras — não é um filme realista. É, sim, um filme escrito em prosa poética, uma rêverie oitocentista (com Meg Ryan em blusa e jeans), com tanto de Jack the Ripper quanto de poesia simbolista. De certo…

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