Casamento de raposa

Sonia Zaghetto

Ontem, ao acordar, encostei a testa no vidro da janela e vi uma fina nuvem de vapor se erguendo do chão. Um pardalzinho pousou no galho sem folhas da árvore e virou a face na direção do nascente. O vento frio da manhã lhe soprava as penas. Carícia de dedos gelados sob os primeiros raios do sol. Nem um som se ouvia. Hipnotizada, observei os dois – o passarinho arrepiado e a água evaporando em direção ao céu em pequenos arabescos de névoa – e me senti intrusa.

Uma atmosfera de sonho e langor me toma nessas horas, minhas mãos esfriam e um arrepio me percorre a coluna. A natureza sempre me parece sagrada demais para ser perturbada pela minha curiosidade. Embora eu dela faça parte, em geral, sinto-me contraventora, avançando sobre um território que deve permanecer puro e selvagem. Como naquela cena do casamento das kitsunes no filme Sonhos

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