Celestino Vieira – Renata Rothstein

As Contistas

 

Acordou, corpo cansado e dolorido, sobre o papelão sujo que fazia de cama, nas ruas.

Dia quente, fim de setembro. Primeiro pensamento: “foda-se tudo” – sorriu, triste e determinado.

Já nasceu causando desgosto. Celestino Vieira, preto e favelado, filho de pai desconhecido e estuprador, um peso nos ombros da mãe.

Era o que ouvia desde criança, durante a infância, aquela, que não viveu.

Núbia, sua progenitora, que por força das (faltas de) circunstâncias passara a ganhar a vida enfrentando a morte, vendendo o corpo, colecionando passagens pelas delegacias, bocas de fumo e centros de reabilitação – até seu último endereço, o cemitério.

Celestino, que não tinha mais ninguém, vivera de abrigo em abrigo, sem nunca entender o que viera fazer nesse mundo.Sem razão. Sem querer.

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