Perséfone

Sonia Zaghetto

Os pés pisavam descalços a terra dos homens, das mãos caíam sementes que engravidavam o solo. A cada passo os campos se cobriam de brotos verdes e tenros. Logo o trigo estaria maduro e as ervas aromáticas tomariam o chão. Ao toque dos dedos de Deméter, os frutos amadureciam, enchiam-se de sumos. Ela sorria e os pêssegos instantaneamente se tingiam de rosa, as uvas escureciam, as maçãs avermelhavam.

De pé, contemplava os homens – pequenos, ignorantes – aprendendo a cultivar. Estes, quando ousavam erguer os olhos, encontravam os dela, tingidos de sabedoria da terra. Uma deusa a comandar plantios e colheitas. Tremenda.

Os olhos dela, vezes sem conta, se perdiam na distância. Estendiam-se para longe do reino dos deuses, muito além dos campos dos homens. E ao pousar na pele branca e nos louros cabelos da filha, convertiam-se em puro mel. Perséfone era seu néctar, seu sopro de vida. Um…

Ver o post original 1.257 mais palavras