O periquito de realejo

Farley Menezes

Tenho uma pergunta para você, ela disse, enquanto se preparava para sair: a saia, a blusa, o salto, o batom, nada destoava naquele arranjo todo combinadinho de cores pastéis.

(a coerência é uma prisão)

– Eu gostaria que você

(ela)

–… ao menos me dissesse

(continuou)

–… o nome

(pausadamente)

Sem conseguir, contudo, terminar a sentença: as palavras foram abruptamente embargadas

(como se seu rosto tivesse recebido um soco)

por um acesso de choro, dolorido como o abandono.

Ela levou as mãos ao rosto, a fim de conter as lágrimas, num gesto inútil, que ao fim e ao cabo fez o choro tornar-se ainda mais intenso

(e doloroso).

A um ou dois passos de distância, ela observava-a, numa compaixão indiferente.

Conhecera-a numa festa, anos atrás, quando foram apresentados por um amigo de um conhecido dele. No início daquela noite, trocaram algumas palavras:

– Onde você mora?

Ele peguntou a ela.

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