Fobia

alma de tinta

Diante da porta de vidro, mirava o próprio reflexo. Cabelos desgrenhados, suor brilhando na testa, peito arfando cansaço de subir. Pouco mais se distinguia sob a luz solitária e pálida da arandela próxima. Olheiras fundas, óculos de grau, roupas amarrotadas, bege e azul-marinho: o estado de desarranjo era irrecuperável.

Aguardava inerte sobre o capacho. Tocara a campainha havia pouco, inútil tocá-la outra vez. Bastava esperar e a porta se abriria na hora certa. Olhos míopes e cansados perscrutavam a superfície lisa e semitransparente. A abstração baralhava as imagens: poltronas chaise no asfalto, néons de um hotel boiando no ar – peixes de éter num aquário vazio. Carros subiam a rua em velocidade, atravessavam a sala, chocavam-se contra a parede de grafiato salmão e desapareciam. Pendurados no teto, semáforos alternavam cores: verde; amarelo; vermelho. Siga. Atenção. Pare. Siga. Intrigante ausência de intermédio entre parar e seguir. Para vencer a inércia é…

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